segunda-feira, 23 de agosto de 2010

USO DAS TIC'S EM EAD: Inovação ou reprodução.

Por Wilmara Cruz Messa e Roberto Carlos da Fonseca
Resumo. Este artigo trata as mudanças ocorridas na educação com o surgimento das tecnologias da informação e comunicação (TICs). O comportamento dos professores, suas necessidades de formação para conviver com essas tecnologias seja na educação presencial ou na educação a distância, ficando atento para não apresentar posturas antigas utilizando recursos tecnológicos.

As mudanças aceleradas pelas quais passa a sociedade do conhecimento mostram-nos transformações irreversíveis em todos os segmentos que, comparados com as alterações ocorridas durante toda evolução da humanidade, só tendem a aumentar, uma vez que existe uma rede de informações e conhecimentos que se multiplica e interfere diretamente na atual realidade.

Todas as mudanças provocadas por esses avanços estão presentes nas dimensões da nossa vida. Elas vêm colaborando para transformar e melhorar a humanidade. Desde a época da máquina a vapor, chegando hoje, as redes virtuais de aprendizagem que tem contribuído para a extraordinária expansão da informação, do conhecimento e a diminuição das distâncias.

Novas atitudes, novos aperfeiçoamentos, novos hábitos e novos espaços surgiram. A esta evolução não tem como retornar. Ela nos convida, se é que não obriga, a convivermos e adaptarmo-nos, realizando relações de entendimento para com essas modificações, ajudando-nos a compreendê-las.

Então, paremos e pensemos na grande repercussão emergida da evolução das novas tecnologias. Isso constitui certamente nos novos espaços e nas novas formas de relacionamento: de negócios, de educação, de lazer e pessoais. A importância gerada por meio disto na sociedade está propagada em todos os seus segmentos. Não se pode avaliar ou indicar com precisão onde as novas tecnologias levarão o homem neste novo milênio, porém se sabe das múltiplas utilizações e benefícios que elas nos oferecem principalmente na educação.

Deste modo, pretende-se identificar a importância do papel das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) no contexto escolar seja ele presencial ou a distância. É perceptível para todos os educadores que já aderiram as TICs que a educação ainda não conseguiu se adequar a mudança que vem ocorrendo na Sociedade da Informação. Para tal, seria importante refletir e entender sobre a importância das TICs no currículo, assim como perceber o papel do professor na utilização das mesmas.

Ao abordarmos as TICs no contexto educacional é fundamental perceber o papel que a aprendizagem e as novas tecnologias desempenham dentro desta Sociedade da Informação e do Conhecimento. Assim, na sociedade atual, conceitos como aprendizagem, informação e conhecimento tornam-se indispensáveis numa escola que tem um papel decisivo na formação dos alunos.

Sabemos que atualmente na Sociedade da Informação, ter acesso à informação é ter acesso ao poder, e ter acesso as tecnologias é questão de cidadania, de inclusão social e digital. É um fato de que as novas tecnologias assumem hoje em dia uma dimensão inegável na sociedade, por isso, importa refletir sobre o lugar que elas ocupam e as novas funções que elas podem desempenhar.

Ensinar utilizando as TICs pressupõe uma prática planejada na qual os alunos têm novas formas de acesso ao conhecimento que poderão culminar em novas formas de aprendizagem. Segundo Kenski, 2008:

A apreensão do conhecimento na perspectiva das novas tecnologias eletrônicas de comunicação e informação, ao ser assumida como possibilidade didática, exige que, em termos metodológicos, também se oriente a prática docente com base em uma nova lógica. Compreender este novo mundo com uma nova lógica, uma nova cultura, uma nova sensibilidade, uma nova percepção.

É necessário desenvolver esta forma de conhecimento, não mais como uma perspectiva estrutural e linear de apresentação metodológica do conteúdo a ser ensinado, mas sim como uma outra lógica, baseada na exploração de novos tipos de raciocínios nada excludentes e que enfatizem as mais variadas formas de reflexões entre as áreas do conhecimento envolvendo aspectos em que a racionalidade se mistura com a emocionalidade para um maior entendimento desta construção conjunta do saber. Segundo Kenski, 2008:

Nesta abordagem alteram-se principalmente os procedimentos didáticos, independentemente de uso ou não das novas tecnologias em suas aulas. É preciso que o professor, antes de tudo, posicione-se não mais como o detentor do monopólio do saber, mas como um parceiro, um pedagogo, no sentido clássico do termo, que encaminhe e oriente o aluno diante das múltiplas possibilidades e formas de alcançar o conhecimento e de se relacionar com ele.

Seríamos convidados então, a refletir estratégias que as TICs possuem para uma possível e efetiva reorganização curricular de modo a contribuir para uma nova relação da escola com o saber e o conhecimento.

O que verificamos na prática escolar presencial que já utilizam equipamentos tecnológicos de última geração, é que, apesar deles, muito pouca coisa se alterou no processo de ensino. Segundo Kenski, 2008, de forma geral as escolas continuam com as mesmas propostas curriculares. Ao não alterar a estrutura da escola e do ensino para poder complementar o uso das TICs, a escola compromete seu ensino e qualifica o meio digital como um recurso caro, sofisticado e que, mais uma vez, é considerado como não funcional.

Para que as TICs não sejam vistas como um modismo que vem e irá logo passar, mas com o olhar relevante e com o poder educacional transformador, é preciso que haja uma reflexão sobre o processo de ensino de maneira global. É necessário, antes de tudo, que os envolvidos neste processo estejam preparados para assumir novas perspectivas filosóficas, que contemplem visões inovadoras de ensino e de escola, aproveitando-se das amplas possibilidades comunicativas e informativas das novas tecnologias, para conscientização de um ensino crítico e transformador de qualidade.

Atualmente, pesquisas mostram que a percentagem de professores que utilizam as TICs ainda é muito baixa, pois pode ser justificado por alguns fatores:

1.Nas licenciaturas os professores não recebem formação da informática de base;
2.Os professores que estão em sala de aula não se atualizam, principalmente porque há certa desconfiança das pessoas que têm mais de 50 anos;
3.As condições das escolas são desencorajadoras da utilização maciça das TICs. São poucas salas preparadas para esta finalidade e quando possui, só disponibiliza um computador ligado a internet;
4.Alguns professores que procuram aprender alguma coisa sobre as TICs deparam com a dificuldade de entender o que são as TICs, como funciona um computador, o que é a WWW, o correio eletrônico, o FTP, o HTML, como digitar imagens e prepará-las para publicação em páginas web, como ligar um modem, etc. Este panorama afasta aqueles que gostariam de saber como utilizar as TICs.
5. A escassez de conteúdos psico-pedagógicos em língua portuguesa afasta o interesse dos alunos.


Apesar de ainda reduzido o número de professores que fazem uso das TICs, para os que fazem uso dela, ainda se encontram algumas barreiras metodológicas:

1.Estes profissionais ainda sentem-se inseguros
2.Existe uma grande falta de motivação dos professores que ainda não utilizam e seria importante que entendessem que eles mesmos poderiam ser os produtores dos conteúdos a serem utilizados. A troca de experiências, de conteúdos, de estratégias torna cada professor num autor de materiais.

É importante lembrarmos que a nova geração de educadores deverá ter mais facilidade com a informática e quem não conseguir ficará a margem dos próprios alunos. Precisam perceber também que o contato com estas tecnologias é capaz de ampliar seus horizontes e acessar novas possibilidades pedagógicas.


Na EAD, a utilização das TICs é tão importante quanto na educação presencial, mas assim como, na educação presencial estas podem ser subutilizadas, na EAD, esta ação também poderá ocorrer. Desta forma, seria necessário ficar atento as novas possibilidades apontadas para utilização de tecnologias interativas que visam a aprendizagem colaborativa não perdendo o foco e o desenvolvimento cognitivo dos envolvidos a partir da utilização de interfaces computacionais.

O ensino em EAD deverá ser transformador, procurando superar desafios e ir além do que hoje é apresentado para nós. É preciso que alunos e professores busquem informações nos diversos ambientes e meios tecnológicos e comparem com a realidade em que vivem. Que busquem nos antigos espaços da sala de aula, alternativas para analisar e discutir dados coletados visando ir além da informação. Domando, orientando suas reais necessidades de pesquisas e de aprendizagem. Informações não mais percebidas como verdades absolutas, mas analisadas a partir de um senso crítico com o objetivo de construção coletiva dos conhecimentos que irá auxiliar na aprendizagem diferenciada de cada indivíduo.

Na EAD, a partir da manipulação tátil, os sentidos da emoção, a intuição, o insight, precisam estar presentes nos debates e nas reflexões de acordo com o interesse e a sensibilidade dos interlocutores. Como diz Levy (1994, p. 129),

(...) as mudanças das ecologias cognitivas devidas, entre outros, à aparição de novas tecnologias intelectuais ativam a expansão de formas de conhecimento que durante muito tempo estiveram relegadas a certos domínios, bem como o enfraquecimento de certo estilo de saber, mudanças de equilíbrio, deslocamentos de centro de gravidade.

Nesse enfoque, não resta apenas cobrarmos dos alunos a aquisição de conhecimentos operacionais para poder desfrutar das possibilidades interativas com as TICs. O impacto que esta causa reflete de maneira ampliada sobre a própria natureza do que se julga ciência e do que é conhecimento socialmente construído e válido. Exige-se uma reflexão profunda de nossa parte, sobre a educação e o ensino produzido, sobre as formas de avaliação da aprendizagem e sobre o processo pedagógico que é desenvolvido.

A utilização das TICs em EAD, orientam para o uso de uma proposta diferente de ensino, com possibilidades que apenas iniciamos a visualizar, a exemplo o ambiente Second Life, que pedagogicamente é superior a qualquer recurso síncrono ou assíncrono. As experiências com o Second Life ainda estão engatinhando quando falamos em EAD, as instituições ainda não utilizam esta ferramenta e as que utilizam não o fazem de maneira plena, talvez em decorrência de dificuldades do próprio programa, seu peso, etc.

Na utilização das TICs em EAD, é necessário ter a preocupação em não adaptar as formas tradicionais de ensino aos novos equipamentos tecnológicos e vice-versa. Novas tecnologias e velhos hábitos de ensino não combinam. É preciso pensar para qualquer modalidade de ensino seja presencial ou a distância que tipo de educação se deseja desenvolver, que tipo de alunos pretendemos formar e que tipo de tecnologias irão se enquadrar na proposta educativa da instituição de ensino. Segundo Kenski, 2008,

É preciso considerar que as tecnologias – sejam elas novas (como o computador ou a internet) ou velhas (como o giz e a lousa) – condicionam os princípios, a organização e as práticas educativas e impõem profundas mudanças na maneira de organizar os conteúdos, as formas como serão trabalhadas e acessadas as fontes de informação, e os modos, individuais e coletivos, como irão ocorrer as aprendizagens.

Cada tecnologia é mais apropriada para um determinado tipo de aprendizagem e desaconselhável para outros. É necessário, sobretudo, que os professores se sintam confortáveis para utilizar esses novos auxiliares didáticos. Estar confortável significa conhecê-los, dominar os principais procedimentos técnicos para sua utilização, avaliá-los criticamente e vislumbrar novas possibilidades pedagógicas partindo da integração desses meios com o processo de ensino. A filosofia que deve ser pensada para orientação e preparação docente para o uso das tecnologias baseia-se no entendimento de que “preparar para o uso” é preparar para trabalhar com as TICs, sem nenhum outro tipo de apoio para que utilizem esse novo meio para revolucionar o ensino. O início deste processo de preparação como já descrito anteriormente, de preferência deve ocorrer nas licenciaturas e nos cursos de pedagogia.

Referências

Almeida, M.E. Práticas e formação de professores na integração de mídia, 2007
Belloni, Maria Luiza. Educação a distância. Campinas, SP: 1999
Filantro, Andreia. Design Instrucional contextualizado: Educação e Tecnologia, 2004.
Kenski, Vani Moreira. Tecnologias e Ensino Presencial e a Distância. Campinas, SP: Papirus, 2003.
Lemos, André. Cibercultura, tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2008.
Lévy, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed.34, 1999.
Litto, Frederic M e FORMIGA, Marcos. Educação a Distância o estado da arte. 2009.
Moran, José Manuel. Mudanças na comunicação pessoal. São Paulo, 1998.

Objetos de Aprendizagem e Second Life. Visões colaborativas. Disponível em: <http://knol.google.com/k/annimo/objetos-de-aprendizagem-e-second-life/1tbgpyv9gq8ct/1?domain=knol.google.com&locale=pt#> Acesso em: 19 de junho de 2009.

Pereira, Alice T. Cybis, Ambientes Virtuais de aprendizagem. 2007
Preti, Oreste, Educação a Distância sobre discursos e práticas. 2005
Preti, Oreste, Educação a Distância construindo significados. 2000.
Rosini, Alessandro Marco. As Novas Tecnologias da Informação e Educação a Distância. 2007.

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